Ser mulher em tempos de redes sociais

Já diziam nossas mães: “Você não é todo mundo!˜. Mas e quando todo mundo parece ter uma vida ideal, são inteligentes e equilibrados, são belos, felizes, saudáveis, e sentimos mais do que nunca que não somos, de fato, todo mundo? Falo agora da perspectiva da mulher, que é a minha, mas que bem pode ser de qualquer pessoa.

Em nossa sociedade, a mulher é socializada para direcionar sua atenção ao outro e suas necessidades. Desde pequenas, aprendemos a partir de nossas brincadeiras (ainda mais em famílias tradicionais) treinos para cumprirmos nossos papeis aos quais, mesmo em tempos atualmente, seguimos sendo escaladas. E sem entrar no mérito de identificação e desejo, não raro absorvemos estes ensinamentos e demandas de forma que nos tornamos genuinamente boas em prestar atenção ao nosso ambiente e ao olhar dos que nos rodeiam.

Mas o que posts de influencers fitness, mães modelo adeptas à educação positiva e blogueiras viajantes que defendem o empoderamento feminino têm a ver com isso? Nós, que somos o produto nesta realidade permeada pelas redes sociais, estamos constantemente expostos ao bombardeio infinito de conteúdo, por vezes de teor educativo ou inspirador sobre a vida e modos de viver. Isto em si mesmo, não é problema algum, afinal tudo depende de um observador para que uma realidade surja. É aí que nós, que tendemos a buscar modelos para nos referenciar quanto a nossas atitudes e escolhas, entramos em um vórtex de informações ilusórias que insidiosamente se tornam fonte inesgotável de ansiedade e angústia, onde a raiz é inequívoca: o sentimento de que somos insuficientes, somos o problema.

O uso das redes sociais, quando com lugar e tempo bem definidos em nossas rotinas, pode gerar conexão com pessoas e formação de comunidade, dar vazão a fluxos de ideias e pensamentos que podem nos impulsionar a buscar aprofundamento, acesso a informação de qualidade quando se citam fontes e o trabalho do produtor de conteúdo é responsável, dentre outras vantagens. Mas igualmente pode nos levar à paralisia, auto-julgamento cruel e sensação de não ter saída, de comparação infinita com o outro e de urgência de dar conta da expectativa que interpretamos que as pessoas têm de nós (e confundimos, por vezes, com a nossa própria).

Entre amigos e pessoas próximas, podemos encontrar acolhimento e falas encorajadoras que aliviam um pouco o terror de se sentir perdida de si mesma. Mas é possível que surja daí um questionamento: o olhar do outro me alivia quando me diz que sou suficiente, mas é de novo o olhar do outro, esse outro que não conheço pessoalmente, que existe onipresente em minha vida, no qual me sinto mais uma vez esmagada por minha angústia. Onde está meu próprio olhar? Onde encontro o que me sustenta em mim mesma e me leva a não ser tão invadida por esse outro?

Em tempos de redes sociais, o externo se confunde com o interno e urge maior separação, uma reconquista deste si mesmo perdido para o individualismo e medo de desintegração em meio a esse outro sem nome, “as pessoas”, “todo mundo”. É quando precisamos voltar a brincar, levando menos a sério a imposição de nossos papéis e lembrando que todos estamos tentando lidar com o lugar que ocupamos no mundo. A psicoterapia certamente convida a ter um lugar seguro para explorar estas questões, mas podemos encontrar diversos espaços onde é possível cultivar esse retorno a si mesmo. Basta estarmos em contextos não julgadores e livres para nos expressarmos. O importante é partir de uma reconexão simples consigo mesmo, mas não necessariamente fácil (ainda mais para quem se está desesperadamente atenta à necessidade do outro), e se perguntar: o que sinto, verdadeiramente, que preciso?

Por Clarissa Prôa

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